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Relações afetivas diminuem o risco de doenças emocionais e garantem velhice saudável

Vida social e atividades coletivas ajudam a combater depressão, comum entre idosos

Claudionor Sanches Vieira não perde a oportunidade de dançar. O carioca faz pelo menos duas horas de dança de salão por semana e, quando viaja, procura logo um baile onde possa agitar o corpo e o coração. Mas ele não para por aí. Na agenda, ainda cabe ir à academia três vezes por semana, fazer natação mais duas e caminhar dois quilômetros no calçadão de Copacabana, bairro onde mora com a esposa.

Em meio a tudo isso, ainda sobra tempo para cuidar dos afazeres domésticos e cultivar as relações sociais. Digna de alguém no auge da juventude, essa rotina pertence a um senhor que, aos 74 anos, não teme a velhice nem sente o peso da idade.

— Olho em volta e meus amigos estão todos com 70 ou 80 anos. Antigamente, era só brotinho. Percebo que estou ficando velho, mas a velhice é a ordem natural das coisas. Que bom é poder envelhecer, mas com saúde. Isso não me assusta, não — afirma Vieira.

LAÇOS AFETIVOS
O cotidiano do aposentado poderia servir de cartilha para exemplificar o que especialistas classificam hoje como uma velhice equilibrada. No modelo de vida saudável recomendado para essa fase da vida, o costume de sair de casa e manter os laços afetivos passou a ser visto como tão importante quanto a alimentação e a prática de exercícios.

— Tem que se manter ativo. Nadar, caminhar, namorar, curtir os prazeres da vida. Só reclamar não adianta nada — ensina ele, que tem três netos e sonha em um dia ser bisavô.

Helenice Charchat Fichman, neuropsicóloga e professora da PUC-Rio, faz coro. Ela explica que a falta de atividades e do convívio social levam o idoso a perder objetivos para o futuro e focar apenas nos aspectos negativos do passado.

— O presente deixa de ser algo motivador porque eles ficam muito isolados, sem fazer coisas diferentes. Então começam a se voltar muito para questões do passado — ressalta.

A rotina agitada sempre fez parte da vida do aposentado. Quando os pais se separaram, ele e os irmãos se transformaram em arrimo de família enquanto ainda estudavam. O gosto pela dança também nasceu cedo e, nas palavras de Vieira, está impresso em seu DNA.

— Para mim, a dança é vida. Com ela, não tem tempo ruim — define.

SAÚDE MENTAL
Atividades coletivas como as que animam o dia a dia de Vieira fortalecem relações e ajudam a driblar a solidão, comum entre indivíduos mais velhos. De acordo com o IBGE, pessoas entre 60 e 64 anos formam o grupo que mais sofre de depressão no país, representando 11,1% dos 11,2 milhões de brasileiros. O isolamento social é um dos principais responsáveis.

Para evitar esse mal, Fichman salienta a importância da família.

— Ela tem o papel de ajudar esse idoso a ter um novo objetivo de vida, criando atividades que o ativem, como buscar os netos na escola — sugere.

FAMÍLIA UNIDA
Aos 68 anos, Maya Santana conhece bem a importância da família e dos amigos. Mineira, ela mora no Rio desde que se aposentou, mas não deixa que os quilômetros entre os dois estados sirvam de obstáculo para o convívio. De seus nove irmãos, ela fala com pelo menos três todos os dias.

— Tenho consciência de que sou privilegiada. Além de grandes amigos, tenho uma família extensa. Sempre digo: a grande herança que meus pais me deixaram são meus irmãos — celebra.

Quando sai com as amigas, ela faz jus à terra natal e adora contar um causo. Os assuntos vão de política à família. E , de tão abundantes, Santana diz que seus planos não cabem em 24 horas.

— Adoraria que o dia tivesse 48 horas para dar tempo de tudo o que eu quero fazer — brinca.

Sobre a velhice, a mineira diz que pode ser uma boa fase desde que haja planejamento:

— Ao se aposentar, pela primeira vez na vida a pessoa tem o tempo todo para si mesma. Se não se planejar, pode se perder na liberdade.

Tropeçar no tempo que a aposentadoria lhe proporcionou não está nos planos de Tiago Lopes Cândido, de 65 anos. Ele costuma praticar corrida todos os dias nas ruas da Cidade de Deus, comunidade da Zona Oeste do Rio, onde mora com a esposa e dois filhos.

Nas festas, a disposição do aposentado não demora a gerar elogios e olhares admirados. No entanto, para encontrar o equilíbrio, Cândido precisou driblar antes a dependência do álcool. Durante anos, parte importante da vida social do aposentado foi mediada pela bebida. Festas e reuniões com amigos eram sempre regadas por vários copos de cerveja, até que o hábito começou a virar um problema.

— A ficha caiu. Chegou um momento que eu tinha que decidir entre continuar bebendo ou não estar mais aqui — lembra.

Após a reabilitação, Cândido está livre do álcool há 14 anos e diz que tudo é diferente, inclusive as festas e os relacionamentos.

— Eu só dançava se tivesse o álcool. Antes disso, eu não conseguia. Hoje em dia, eu danço muito mais do que naquela época, porque eu faço isso de cara limpa. Quando bebia, achava que sem o álcool não conseguiria. Hoje, eu animo as festas e muita gente pergunta: ‘Pô, mas ele não bebe, não?’.

 

Fonte: O GLOBO

Fonte: O GLOBO

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